quinta-feira, outubro 23, 2014

POR TUDO, POR NADA.



Chorava por tudo e sobretudo por nada, quando a vida estava boa e quando estava lixada. Quase da mesma forma como nos queixamos do clima: ora porque está sol, ora porque está neblina.

Chorar faz bem à alma. – dizia sua mãe, a bondade em pessoa, com alguma comiseração.
Chorar é para maricas. – dizia seu pai, no seu tom autoritário, sem nenhuma consideração.

Desde sempre fora assim: menino choramingão; rapaz de lágrima fácil; homem sensível. E não é que às vezes dava um jeitaço! Já outras... era terrível. 
Havia mulheres que, por isso, o achavam encantador. Outras porém, como Clarice ­- o seu grande amor (platónico, diga-­se) – achavam que não era normal tanta choraminguice; alguma disfuncionalidade deveria existir, então não seria normal, neste tipo de coisas, o homem fingir? Toda a gente sabe que os homens escondem aquilo que sentem e que são traidores e que mentem.
Já no mundo masculino, um mundo bem mais pragmático, era tido como bera, mas que quando bem-disposto vê-­lo chorar de rir era uma risota, lá isso era.

Difícil viver-­se assim ­- a luta uma constante: uma cabeça, completamente no sítio, prática que só visto, que dizia que não podia chorar; um coração, enorme de nascença, lamurioso por
contingência, teimoso em a contrariar – mas... enfim, as lágrimas procuravam liberdade, não se seguravam nas pálpebras superiores, tinham vida própria, não faziam favores. E rolavam, rebolavam, muitas vezes em catadupa, outras de uma forma menos abrupta, docemente até, na face deste homem que teimava em chorar, por tudo e por nada, e que não conseguia, ele próprio, perceber aquilo que é: um homem de lágrima fácil? um menino sensível? um rapaz choramingão?; vá lá saber-­se a resposta a tão difícil questão.

2 comentários:

Alexandrina Lopes disse...

I like it!

Sílvia disse...

Aqui está a minha amiga que sempre gostou das letras e que se perde no meio dos números. Beijinhos