Eu sou daquelas pessoas que não consegue esconder o seu estado de alma porque tanto a minha cara como a minha voz não me deixam mentir.
Ando triste, muito triste. Comigo, com os outros, com a vida em geral. E quando ando assim (é verdade, não é a primeira vez) nada me consola e só me apetece chorar. Eu sei. Chorar não resolve nada. No entanto, não consigo deixar de o fazer, é mais forte que eu. Prefiro chorar de alegria, claro (o que também acontece muito) mas ultimamente é a tristeza que não me larga.
Devo ter uma falha qualquer na construção da minha personalidade porque normalmente fico assim quando surgem problemas, quando é preciso tomar decisões importantes, quando é preciso ser forte, quando é preciso dar força a alguém. E mesmo conseguindo-o fazer, tenho sempre este ritual de choro, de sofrimento, antes, durante e às vezes até mesmo depois.
Quanto sofrimento aguenta um coração?
É que eu tenho o meu já tão sofrido...
Uma vez alguém me disse que parece que eu gosto de sofrer (engraçado, foi alguém que me fez sofrer muito, muito mesmo) mas não, não gosto. Mas sofro sim, sofro por mim e principalmente pelos outros, por aqueles de quem gosto. E nestas alturas sou a verdadeira alma lusitana, tudo me parece cinzento e sinto-me a pessoa mais infeliz do mundo. A mais impotente também. E choro, choro muito, choro como se não houvesse amanhã. E apetece-me sumir, apetece-me fechar os olhos.
Olhando pra trás reparo que existe um padrão neste sofrimento. Talvez exista mesmo um sofrimento por antecipação.
Eu coloco logo à partida os piores cenários, como se não houvesse solução pra nada, como se o mundo fosse desmoronar, pelo menos o meu mundo. E depois acontecem coisas que me mostram que afinal não previ os cenários todos. Há sempre algo pior que pode acontecer. E pra mim o pior é sentir que aqueles que poderiam ajudar, aqueles em quem confiamos, nos abandonam, pura e simplesmente, nos momentos mais difíceis.
"Cheguei a uma altura da minha vida em que quando pressinto problemas, evito-os a todo o custo", dizia-me alguém há um tempo atrás. Agora percebo-o, agora sei o que quis dizer.
Já eu sou ao contrário, se os problemas disserem respeito àqueles de quem eu gosto, com os quais eu me preocupo, mesmo trazendo problemas pra mim, eu estou lá. Chorona, é verdade, desmoralizada também, mas estou lá pra dar o ombro, pra chorar junto se tiver que ser.
Mas depois olho pra trás e fico com pena de mim. Sim, eu tenho pena de mim às vezes, quando chego à conclusão que eu fui a única que não consegui seguir em frente.
De uma forma ou de outra os problemas resolvem-se, mesmo os muito graves, e eu no meio de tanto choro esqueci-me de avançar, de seguir um rumo, de olhar em frente, de seguir um caminho a pensar em mim, porque não posso decepcionar ninguém. Não, porque não posso faltar a ninguém!
E se sabes isso Lurdes, porque não mudas? Porque a minha essência é esta, porque é mais forte que eu, porque não posso admitir que os amigos abandonem os amigos, porque é nos momentos maus que eles se conhecem, porque a família deve vir em primeiro lugar. E se eu tiver que deixar de ser feliz para que os outros possam ser felizes, isso não é assim tão difícil de aguentar. Difícil de aguentar é sentir-me nesta luta sózinha, olhar pelo túnel e não ver luz ao fundo, querer ver toda a gente bem e saber que isso é impossível.
Não sei quanto sofrimento aguenta um coração. Sei que o meu tem tido a noção que sempre se aguenta um pouco mais. Até quando? Não sei.
* Porque há coisas difíceis de desabafar mas que não podem ficar cá dentro pra sempre.PS - Um beijinho grande para ti que ouvindo a tristeza da minha voz apareceste logo a seguir com uma rosa amarela como que a dizer, estou aqui. Obrigada, Sílvia.